A viagem!

Viagem de comboio
Dizes tu ao meu ouvido!
Pouca terra, pouca terra, hú, hú, hú!…
Fico com o meu sentido
Apertado em te ver rolar!
Atravessas os rios
Ouço os teus assobios!
Encostas e cordilheiras!
Nossa Senhora do Salto
Romaria das alheiras!
Ramadas que estão ao alto
Uvas que estão penduradas
Que aroma tão perfumadas!
Embriago-me em Trás-os Montes,
O vinho do Sr. Fontes,
Enchidos, pão de trigo
Quero estar sempre contigo!

Autora
Maria Antonieta

Silêncio!

Caminheiro, companheiro
Devagar, devagarinho
Vamos pelo caminho
Ao encontro do amor!
Que surge com tanto alvor,
Surjo à vida, para amar!
À solta muito vivida
Como rosa florida
No calor do teu olhar!
Na quietude da verdura
Sinto uma leve doçura
Que inebria o calor do teu corpo!
Nesta tão doce quentura
Vou deleitar-me na aventura!
Nestas longas amnésias
Desfruto tudo num sopro
Que esvoaça nas falésias!

Autora
Maria Antonieta

Mãos!

Mãos que ajardinam as dores da alma
Aflora, gesticula, apaga
A chama que arde no peito!
Mãos que suaviza o imperfeito!
Tecem teias de ferida
Clama ao fluir da magia!
Mãos que granjeia o pão de cada dia
Que labuta no frenesim do tempo!
Retalhos de uma vida querida
Que enfeitam o prolongamento
Da velhice vista ao espelho!
Rugas, cabelo branco amacias,
Mãos unidas oram ao Messias
Na capela da Vila do Sobrelho!
Mãos, animas crianças a chorar!
Suavizas lágrimas a rolar
No rosto de uma mãe aflita!
Mãos, que ajeitam a fita
No vestido da Mirita
Vai à festa toda catita!!!

Autora
Maria Antonieta

Peregrino!

Peregrino caminhante,
Vais todo confiante
De mochila vais às costas,
Sobes e desces montanhas
Por entre vales e montes!
Charcos e muitos silvados
Colhes amoras tamanhas
Bebes água pelas fontes
Apanhas frutos em cachos
Saboreias sorridente,
Teus pés muito pisados
Atravessas os riachos
O queijado vai na mão
Para o caminho embalar!
Na saca levas o pão
Muitas pedras vais calcar!
No teu olhar reluzente,
De águas tão transparente
À virgem vais a rezar!!!

Autora
Maria Antonieta

 

O rio!

Rio que banhas montanhas
De beleza deslumbrante!
Casas no monte em cascata
És lindo e tão brilhante!
No teu dorso fazem regata!
Árvores de muitas castanhas
Oliveiras, amendoeiras, vinhedos!
Onde escondes teus segredos!
Orada lá no alto com a cruz
Enfeitada de muita luz!
No planalto e serranias
Que no Inverno são tão frias!…
O abade da freguesia
Vai fazer a homília
Aos compadres da aldeia!
Depois vão comer a ceia,
Tigela de caldo de aveia
Ficam todos regalados!…
Tuas águas tão reluzentes
Que prendes todas estas gentes
Ao teu belo encanto!…
Tudo é um espanto!!!
Tapetes tão verdejantes
São como os grandes amantes
Que amam com perdição!…

Autora
Maria Antonieta

O pássaro!

Sou pássaro ferido
Quero voar, não consigo
Sem asas, ao vento perdido!
Por cearas amarelas
De trigo, aveia, centeio,
Parecem aguarelas
Pintadas de galanteio,
Levam o pio a gemer,
Longos caminhos a percorrer
Extasiado de dor!
Cansado de tanto sofrer
Adormeceu e sonhou!…
A crisálida do amor
Vem depressa a correr
Da ferida lhe tratar!
Veio do céu a voar
Pomba branca ajudou,
O pássaro ficou a piar!
Os dois juntos lá no alto
Voaram para o planalto
Amando o seu olhar
Os dois vão arrolar!!!

Autora
Maria Antonieta

A chaminé!

No beiral da tua casa,
Decorada com acácias,
Azuis, vermelhas, brancas,
Não me venham com falácia
Que beleza que arrasa
Qualquer telhado se abrasa
Na chaminé de tranças
Enroladas de muita cor!
Vem o vento leva a flor
Fica sem encantamento!
A andorinha com jeito
Enrola-se no parapeito
Diz-lhe, a dado momento,
Não desanimes, amiga,
És linda a largar fumo
Fica tudo perfumado,
Lá no fundo há uma espiga
Ser assada com aprumo
Fica tudo regalado!!!

Autora
Maria Antonieta

O imigrante!

Que bonito é o Agosto!
Lua cheia, que luar!
O sol vai brilhar
Nos longos dias a caminhar
Cheios de alegria, com gosto!
Chegam cá os imigrantes
Nos olhos lágrimas, esfuziantes!
Neles trazem saudade
No coração um olhar
Ansiosos de abraçar
Família, amigos de amizade
Tanto tempo, sem os ver!
Depois de tanto labutar
Merecem à terra voltar!
Férias, praias, romarias
É vê-los sempre a correr!
Lá na terra, as três Marias
Fazem festa até anoitecer,
Dançam, cantam, no arraial!
Sorrisos, todos contentes
Lançam tantos foguetes
Em honra da sra. da Agonia!!!
Rezam preces de poesia
Ao longo de todo o dia!
Partem com nostalgia
Até ao ano voltar,
Beijos e muito amar
Ao nosso querido Portugal!!!

Autora
Maria Antonieta
Reservado direitos do autor

A aldeia!

Ermida no povoado
Por casinhas ladeado,
Debruço-me no alpendre
Avisto mesmo de frente
De ver assim tanta gente,
Animados lá na aldeia!
Meu coração lá se prende
Nela trago na ideia
De a ver iluminada!
Na torre badala o sino
Vai sair a procissão!!!…
A banda toca o hino
Comove o meu coração!!..
Nossa Senhora enfeitada
De miosótis, rosas brancas
De portas abertas e francas!…
O pote está na lareira,
Sopa de abóbora, feijão!
Estoiram foguetes no ar
Toda a gente vai dançar!

Autora
Maria Antonieta

Ao mundo!

Se eu pudesse abraçar o mundo
De uma braçada só,
Sentiria o coração quente
De afagar tanta gente!
Seria como a mó
Gira, gira sem parar,
Sinto a alma a clamar
Neste amor tão profundo!
Na tua grandiosidade
Te sinto tão desbastado!…
Na tua nobre humildade
Que vestes a humanidade
De amor, paixão, saudade,
Sinto que estás esgotado
De tanto te ver chorar!

Autora
Maria Antonieta